Copiar, colar, repetir.

Você também tem a sensação de que tudo vem ficando cada vez mais parecido, como se cada novidade fosse apenas uma variação do mesmo? 

Não é apenas uma sensação individual, mas um fenômeno cultural coletivo que pode ser chamado de ‘exiguidade cultural’. É uma redução, limitação e achatamento das referências visuais, estéticas e gostos pessoais, tudo fortemente curado, recomendado e reforçado pelos algoritmos das redes sociais. Afinal, se todo mundo busca inspiração nos mesmos lugares, o resultado é cada vez mais homogêneo.

Segundo dados da pesquisa ‘Reset da Mesmice’, 1 em cada 4 brasileiros admite que seu gosto está ficando genérico, em um cenário que 49,2% já não sabem separar o que gostam do que foi recomendado, tornando os conceitos de identidade, gosto e estilo pessoal cada vez mais difusos. Além disso, 37,7% sentem viver num eterno looping.

E o problema não é só o volume excessivo de informações: ser bombardeado por essa monocultura entregue em looping não só nos torna mais parecidos, mas também gera uma exaustão do olhar e deteriora a nossa saúde mental. Assim, as pessoas começam a buscar alternativas para quebrar esse ciclo. 

Refúgio analógico

Uma das alternativas de fuga mais visadas não é nova, mas somente estava esquecida na estante. Os livros estão em alta, o mercado editorial está aquecido, e não apenas de forma mercadológica. Mais que vendas crescentes de livros, todo o ecossistema da leitura e literatura parece estar ganhando tração na cultura e passando por transformações. Se as pessoas hoje anseiam por retomar o controle da própria vida e gosto pessoal, depender cada vez menos dos algoritmos e confiar mais nos seus instintos, a leitura ressurge com uma busca por identidade, saúde e bem-estar. 

Os movimentos literários alimentam não só essa busca por ampliar o repertório de forma intencional para reconstruir sua própria identidade, mas também uma forma de desacelerar e combater a exaustão do uso intenso de celular e redes sociais. Mas talvez o efeito mais contra intuitivo da ascensão da leitura seja o fortalecimento de laços e vínculos humanos. Eventos locais, feiras literárias, comunidades virtuais, clubes do livro: ler é cada vez menos ‘lido’ como um ato individual, mas como uma forma de se conectar, estar em coletivo e pertencer a uma tribo ou comunidade, algo muito precioso em tempos de isolamento e hiper individualização.

O que a cultura organizacional tem a ver com isso?

Se as pessoas ficam com gostos cada vez mais parecidos, as organizações tendem ao mesmo movimento de massa. O "padrão” do ambiente corporativo vai sendo reforçado nas redes sociais, nos cases de sucesso, nas fórmulas prontas e nos conteúdos mostrando o que é uma “cultura forte”. E o padrão dos dias atuais é uma aceleração e hiperprodutividade cada vez maior, com mais reuniões, mais metas, mais ferramentas e mais IA — a joia da coroa, que reforça e retroalimenta todos esse ciclo e vai padronizando ainda mais o que é criado. 

A exaustão e os problemas de saúde mental que vemos na vida privada também refletem no trabalho: 6 em cada 10 brasileiros alegam estar desengajados (só 39% engajados, o pior da série), sendo a liderança a camada cujos resultados mais caiu, com 78% dos executivos relatando ansiedade. Consequentemente, mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025, alta de 15% na série histórica. O adoecimento é sério, real e sistêmico. 

Não há soluções simples para problemas complexos, mas existem pistas de que caminhos podem nos tirar da encruzilhada, a começar pela atenção à saúde mental. A nova NR-1 entrou em vigor em maio de 2026, e agora as empresas precisam também mapear, prevenir e controlar os riscos psicossociais: fatores como estresse ocupacional, burnout, assédio moral e cobranças abusivas de metas. Mudanças de legislação e regulação costumam impulsionar transformações de longo prazo, mas leva tempo até as organizações se adaptarem. 

Muitas vezes, o que ainda segura as organizações — e suas pessoas — de pé é o vínculo entre pares, os relacionamentos e as "comunidades”, mas por vezes falta tempo e olhar. A saúde social pode ser cultivada de forma mais intencional dentro das organizações, para ir além das trocas e interações informais e espontâneas na rotina: rituais bem desenhados, espaços de conversa e comunidades internas são apenas algumas das inúmeras formas das pessoas se conectarem para além da meta a ser batida. 

Por fim, a mudança passa também por reconhecer e aceitar a individualidade de cada um e a diversidade do todo. Se cada pessoa é única, com seu repertório, subjetividade e vivências, cada organização é única, múltipla e complexa. A cultura mais viva não é o que replicamos de fora pra dentro, tentando seguir as últimas tendências, mas o que emerge das interações, laços e histórias das pessoas de uma organização. E se o mercado todo parece cada vez mais uma cópia de uma cópia de uma cópia, podemos combater a monocultura dando voz ao que de mais único e singular pode nascer dentro da pluralidade de cada organização. 


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