Perder o Norte

No dia 19 de julho de 2026, a final da Copa do Mundo aconteceu em solo estadunidense, pela primeira vez na história do torneio, teve show do intervalo nos moldes do Super Bowl. O país-sede queria enfim transformar o futebol em espetáculo à sua imagem. Só que quem entrou no gramado dirigindo a Madonna foram Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, e foram os dois que roubaram a cena. A festa pensada para exibir a grandeza estadunidense virou vitrine do Brasil, e sobrou reclamação com a "americanização" do evento.

O episódio se soma a outros. Uma multidão de jovens, primeiro nos Estados Unidos e depois mundo afora, anda declarando estar "numa fase muito chinesa da vida": água quente com limão no lugar do café gelado, chá de ervas, tai chi na praça, pulinhos ao acordar, chinelo dentro de casa. Batizaram de Chinamaxxing. No mesmo período, a China registrou 697 milhões de travessias de fronteira em 2025, com entradas sem visto quase 50% maiores, e ultrapassou os Estados Unidos em reputação pela primeira vez no índice de soft power da Brand Finance, ainda que siga atrás no placar geral. O "made in China", segundo Ewerton Mokarzel, da FutureBrand, deixou de competir só por custo para competir por cultura, tecnologia e relevância. Alguma coisa se deslocou no lugar que costumávamos chamar de futuro.

A denúncia por trás do meme

Seria fácil ler tudo isso como um súbito amor à China. As análises mais atentas leem o contrário: uma denúncia dos próprio Estados Unidos. O que esses jovens idealizam é uma China simbólica, quase inventada, que reúne aquilo que sentem ter perdido em casa: comunidade, estrutura, cuidado com os mais velhos, algum limite, uma vida que não escorregou para a solidão e o burnout. Não há quase nenhum produto chinês de verdade na história, e é isso que torna o sintoma mais nítido. O objeto de desejo não é um país, é um jeito de viver. O sonho americano prometia ascensão individual, e o que o futuro parece querer é o oposto do preço que aquele antigo sonho cobra.

O que a cultura organizacional tem a ver com isso?

Esse cansaço não fica só no estilo de vida. Ele também é o sistema operacional de como se trabalha e se lidera. O sonho americano sempre teve um protagonista: o indivíduo que se faz sozinho, o líder que aponta o caminho, concentra as decisões e encarna o topo que todos deveriam escalar. A mesma tendência dos pulinhos e do chá de ervas vem sendo lida como um recado ao mundo corporativo, uma recusa da produtividade a qualquer custo. O desgaste desse sonho é também o desgaste de um jeito de mandar. Se o Norte deixou de ser a referência de como viver, por que seguiria sendo a de como liderar?

O pensamento decolonial ajuda a nomear o incômodo. O colonialismo sobrevive como uma forma de conhecer e de organizar que elege um único centro como medida universal de tudo, e reaparece, dentro das empresas, na figura da liderança que centraliza, aquele que impõe o próprio jeito de ser e de fazer como o jeito certo e coloniza a cultura do time com a sua. Descolonizar a liderança é descentrar essa figura do líder como cume a ser alcançado, e aceitar que existem outras formas de conduzir, inclusive vindas de onde nunca se olhou para buscar referência.

Entre muitos povos indígenas, liderar nunca foi mandar. A autoridade se exerce pela palavra, depende do consentimento da comunidade e se apoia na generosidade de uma liderança que distribui mais do que guarda. O Ubuntu na África Austral parte do "sou porque somos": a autoridade é relacional, existe na teia entre as pessoas, e no trabalho se traduz em decisão coletiva, responsabilidade compartilhada, escuta profunda e priorização da dignidade humana.

"Perder o norte", na expressão que herdamos, é ficar sem direção. Talvez valha ler ao contrário, perder o Norte com maiúscula, aquele que se vendia como o único destino possível, pode ser a condição para encontrar uma direção própria. A liderança que essa virada pede não é a que conhece o caminho e o aponta. É a que abre espaço para que o caminho apareça, feito por muita gente ao mesmo tempo.


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