Zona de desconforto

Em algum momento, o mundo do trabalho decidiu que sofrer era prova de crescimento. "Sair da zona de conforto" virou um mantra, como se toda evolução tivesse algum grau de mal-estar e, quem estivesse confortável demais, provavelmente não estava se esforçando (e evoluindo) o suficiente. No caminho, embaralhamos duas coisas que não são a mesma: ser desafiado e estar desconfortável.

O antagonismo do desafio

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis já tinha sacado a armadilha: "As botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar." Esta apreciação de um cenário de desconforto intencional existe apenas para dar sentido ao prazer. Boa parte da cultura do desafio funciona assim: apertam-se os sapatos para vender o alívio como uma recompensa. O prazer, ao contrário do que supomos, não está no acúmulo de estímulo. Está no alívio dele.

Foi nessa direção que Freud descreveu o princípio de prazer-desprazer: o aparelho psíquico busca descarregar tensão, não acumulá-la. O desprazer é o excesso, a tensão que não cessa; o prazer é a sua descarga. "Desprazer e tensão permanecem para sempre sinônimos de vida", resume o psicanalista Juan-David Nasio. A consequência é menos óbvia do que parece: estímulos constantes não desafiam ninguém a se desenvolver.

Nessa saturação de estímulos, o sistema tende a repetir padrões antigos para aliviar a carga. É o que a psicanálise chama de compulsão à repetição: diante de uma tensão que não se elabora, ele volta ao caminho conhecido em vez de criar algo novo. No trabalho, a dinâmica é a mesma. Em algum momento, passamos a tratar o crescimento como algo que só se prova no mal-estar. Mas conforto e desafio nunca foram opostos. É justamente a abundância de tempo, de repertório e de tranquilidade que cria as condições para o desenvolvimento acontecer.

Quando a métrica vira meta

Pense que os sapatos apertados de hoje, não são botas, mas sim, movimentações no cursor do mouse e monitoramento do uso de tokens de IA. Visto de longe, parece um exagero restrito ao ecossistema de tecnologia. Mas a mesma lógica circula por muitos ambientes de trabalho com outros nomes: a pressão para acelerar, produzir mais, entregar antes, operar sempre no limite.

Esses apertos no sapato são a versão atualizada de um problema antigo. Há um princípio conhecido na economia, a Lei de Goodhart: toda métrica, ao se tornar meta, deixa de ser uma boa métrica. No instante em que movimentar o mouse e usar IA vira o indicador, otimiza-se para parecer produtivo, não para entregar. Passa-se a medir quem usa mais as ferramentas e não quem trabalha melhor com elas.

A promessa era de alívio: a IA reduziria a carga de trabalho e devolveria tempo. O que se observa é o oposto. Um estudo da Harvard Business Review que acompanhou cerca de 200 profissionais por oito meses mostrou que a tecnologia não diminuiu o trabalho, mas o intensificou: acelerou a execução e, com ela, a pressão, o volume e o ritmo. Uma pesquisa do Upwork captou a distância entre expectativa e realidade: 96% dos executivos esperavam mais produtividade, enquanto 77% dos funcionários relataram mais carga. O que adornamos como desafio se converteu em vigilância e velocidade. E o que se perde nessa panela de pressão é o próprio ofício, que exige tempo para pensar, errar e deixar uma ideia amadurecer até ganhar forma.

O que a cultura organizacional tem a ver com isso?

Quando uma organização confunde desafio com desconforto, ela tem a ilusão de construir uma cultura que fomenta o desenvolvimento, mas na verdade está aumentando as tensões. Se sofrer vira prova de comprometimento, desacelerar passa a soar como fraqueza.

Freud sugere ainda outro ponto que merece atenção: toda satisfação forçada em um lugar costuma cobrar seu preço em outro. Empurrar produtividade para cada canto da operação não gera entregas de valor, apenas desloca o desgaste para outro ponto do sistema, quase sempre para as pessoas. Desafiar de verdade não é levar o sistema ao limite. É oferecer condição, e tempo, para que ele se transforme.

Não se trata de recusar a tecnologia nem de romantizar a lentidão, mas de parar de tratar acúmulo como sinônimo de avanço. Talvez a pergunta que importe não seja quanto a mais conseguimos produzir, e sim o que estamos dispostos a desacelerar para fazer melhor.


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