Metamorfoses

Desde que me tornei pai, a passagem do tempo se tornou um dos temas mais centrais da vida. Das reflexões pessoais, às trocas do cotidiano. O nervosismo pelo amanhã, as saudades de ontem. “Aproveitem que passa muito rápido!” é provavelmente a frase que mais escutei desde então.

Mas o tempo é de fato impressionante. A percepção é totalmente alterada. De um dia para o outro, uma nova habilidade ou truque que muda todo o cotidiano de ponta cabeça. De uma semana pra outra, já se torna outro ser, um bebê transformado por inteiro. Em um curtíssimo espaço de tempo, a vida já ficou totalmente irreconhecível.

É um convite constante à presença. Atenção plena, estar inteiro em tudo que se faz e que se vive. Porque amanhã já é outro dia. As metamorfoses são constantes. 

Claro que um bebê muda com muito mais velocidade e intensidade. As fases são curtas e aceleradas, a neuroplasticidade e a flexibilidade cognitiva estão no auge, todos esperam e aceitam a mudança. 

O mesmo vale pros avanços tecnológicos: estamos sempre esperando pelas mudanças, de olho na próxima curva. Ontem a Inteligência Artificial era hype, novidade. Hoje já é ‘realidade’ e tema saturado, e já se diz que amanhã precisa ser consolidada e dar o tão prometido retorno e resultado.

Hoje, praticamente peças de museu. Até ontem, meios de se expressar, comunicar, armazenar e escutar música.

Mas e nós humanos, depois que crescemos e viramos adultos? 

Acho que às vezes nos esquecemos, mas as pessoas continuam mudando, até o final. Melhores amigos se afastam, amores eternos se tornam meros conhecidos. Paixões fervorosas e obsessões de uma fase que representam a identidade inteira de uma pessoa de repente se esvaem. Coisas que juramos nunca ser, dizer ou fazer acabam retornando na próxima esquina da vida. Desafetos podem se tornar melhores amigos, e meros conhecidos com quem não parecemos ter nenhuma conexão de repente se tornam presentes no cotidiano.

As pessoas também mudam intencionalmente. Se criam e se moldam como querem. Fazem de si mesmas experimentos, esculturas vivas a serem moldadas. Tentam construir a ‘melhor versão de si mesmas’, buscando calcular e controlar por completo quem se tornarão. Como personagens de uma série, ‘escolhendo a personalidade’ para suas próximas ‘temporadas’. 

‘Self-made man’, de Bobbie Carlyle. ‘Make Yourself’, de Incubus. ‘Mudar: Método’, de Édouard Louis. 

Eu acredito que todos mudamos, o tempo todo. 

Mesmo que acredite que as pessoas não mudam. Mesmo que você se sinta estagnado como se estivesse vivendo o mesmo dia todos os dias como em um grande ‘Feitiço do Tempo’. Mesmo que as pessoas sigam te tratando como se você tivesse parado no tempo, quando na verdade elas é que congelaram a própria visão que tem de você. Mesmo que você esteja satisfeito com quem é e onde está hoje e não queira mais mudar. Mesmo que você mesmo acredite que ainda é a mesma pessoa há anos e que talvez não haja mais escapatória. 

Quanto você acha que existe de mudança na sua vida? 

Independente da idade, consciência ou da intencionalidade, do quão perceptível ou invisível aos olhos ela for, de qual a sua religião, crença ou cosmovisão. Nada é permanente, exceto a mudança. 

Heráclito de Éfeso foi um importante filósofo pré-socrático, famoso por dizer que ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio. Tudo corre, tudo flui, e quando retornamos, o rio não é mais o mesmo, tampouco nós somos os mesmos. A sua teoria do Devir era de que tudo é e deixa de ser, tudo é um eterno vir-a-ser. 

Embora influente no mundo ocidental e na Antiguidade Clássica, ele não foi o primeiro, o único nem o último a dizer isso tudo. Essa ideia da transitoriedade de tudo, em que ‘nada é, tudo está’, também é muito central no budismo, traduzida no conceito de anicca (अनित्य), que significa impermanência. 

Mas não precisamos ir muito longe no espaço-tempo para encontrar os mesmos princípios, ditas de outras formas. Basta lembrar do Lulu Santos, que pra mim fez isso de forma muito mais simples, direta e popular. Quando ele disse que ‘nada do que foi será, do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará’, até a metáfora da vida correndo como a água foi a mesma do Heráclito. A diferença é que o Lulu trocou a correnteza do rio pelas ondas do mar, como um bom carioca. 

Distantes na linguagem, próximos na mensagem.

 

Gosto muito também do Raul. Ele, que até anteontem tinha seu nome proclamado sempre que havia um violão à vista, dizia que preferia ser uma metamorfose ambulante. E se ontem era estrela, hoje o ‘Toca Raul’ é só uma lembrança, e amanhã já se apagou. 

E é por isso que eu gosto do Lulu e do Raul. Já que não somos mais os mesmos de ontem, reconhecer e abraçar a mudança é o que nos permite seguir em frente, com leveza, cabeça erguida e confiança. Lembrar que eu não sou o mesmo de ontem, e que amanhã não serei o mesmo de hoje. E que o mesmo vale não só pra mim, mas pra todos ao meu redor. 

Nunca mais seremos os mesmos. Nem o mundo ao nosso redor, nem as tecnologias que usamos hoje. Nem eu, nem você. Nem a Labuta, nem essa newsletter. E isso me encanta mais do que espanta. Me traz de volta pro presente, a cada instante. 

Já que somos todos metamorfoses ambulantes, eu prefiro ser.


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