Sem comunidade, aprendizagem é só conteúdo
Aprendo desde que me conheço. Aprendo formalmente, aprendo no erro, aprendo escutando pessoas, aprendo observando. Isso se conecta com um conceito criado na década de 70 e popularizado nos anos 90, ancorado pela Unesco: o aprendizado ao longo da vida, ou em inglês, life long learning, a ideia de que aprender não é uma fase da vida, mas uma prática contínua que nos acompanha do berço ao último dia.
Nos últimos anos, ao longo das diversas andanças na busca pelo conhecimento, mais especificamente em 2016, encontrei uma comunidade de aprendizagem chamada Art of Hosting, espaço que nos convida a mergulhar na inteligência coletiva e na capacidade de auto-organização de grupos, combinando um conjunto de poderosas metodologias de conversação para convidar as pessoas a assumirem o controle dos desafios que enfrentam. Aqui tive a oportunidade de viver a experiência e depois facilitar alguns encontros da comunidade. Ah, fica a dica: vai rolar um encontro no próximo dia 13/06/2026, em Curitiba, celebrando os 20 anos do movimento no Brasil.
Vivendo a inteligência coletiva no Art of Hosting
Voltando para os anos de 2016 e 2017, imerso nos meus processos de aprender, aprender e aprender, recebi um convite para dar aula na Escola Lumiar, uma escola que colocava o aluno no centro do processo, ainda antes da mudança da BNCC, uma vivência incrível que ampliou minha visão sobre educação e aprendizagem. Naquela época, vivia entre o mundo educacional e o mundo corporativo, tentando conectar os pontos e traçar um paralelo entre as experiências do dia a dia da escola e a construção de design dos processos de facilitação nas organizações.
Lumiar: Educação inovadora e aluno no centro
Herbert Simon, Nobel de Economia, já dizia em 1971 que uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção. Cinquenta e cinco anos depois, essa frase nunca esteve tão atual. O recurso mais escasso do ambiente corporativo hoje não é tempo, não é dinheiro, não é talento. É atenção.
A Oxford University Press elegeu brain rot, deterioração cognitiva causada pelo excesso de consumo digital, como palavra do ano em 2024. Nunca tivemos acesso a tanto conteúdo. Nunca retivemos tão pouco.
Beleza, até aqui nada muito diferente do que estamos habituados a encontrar ultimamente. Mas a questão central é: o que precisa existir para que alguém esteja presente o suficiente para aprender? Depende do contexto, do ambiente, das crenças, das experiências que cada indivíduo já teve.
Três das quatro dimensões do que Josh Bersin chama de aprendizagem eficaz dependem diretamente de outras pessoas: experiência prática, exposição a pares e mentores, e ambiente psicologicamente seguro. Aprender, no fundo, é sempre um ato social. O conhecimento se consolida na troca, na fricção, no pertencimento.
É aqui que o episódio mais recente do Vibes em Análise, podcast de psicanálise do Lucas Liedtke e André Alves, me pegou em cheio. A conversa central é sobre comunidades, mas atravessa tudo: solidão, identidade, confiança, a diferença entre estar num grupo e pertencer a algo.
Vibes em Análise: O papel do pertencimento na aprendizagem
Eric Hobsbawm já havia dito que a palavra comunidade nunca foi usada de forma tão vazia quanto nas décadas em que comunidades reais deixaram de existir.
Byung-Chul Han afina essa observação: nos comunicamos ininterruptamente sem participar de nenhuma comunidade. Acumulamos contatos sem encontrar o outro. A comunidade comoditizada, o grupo de WhatsApp, o canal de Slack, o programa de mentoria batizado de comunidade, é, nas palavras dele, o próprio fim da comunidade.
Byung-Chul Han e a crítica às comunidades digitais
No universo das organizações, isso tem consequências concretas. Toda tentativa de criar uma cultura de aprendizagem que deposita a responsabilidade nas costas de pessoas bem-intencionadas está construindo algo frágil.
O psicanalista Wilfred Bion estudou grupos durante anos e chegou a uma conclusão útil e desconfortável: o modo produtivo de um grupo, aquele organizado em torno de uma tarefa compartilhada, é o mais frágil de todos.Quando o grupo não consegue sustentá-lo, ele regride: espera um salvador, une-se em torno de um inimigo ou deposita tudo numa promessa futura.
Reconheceu alguma dinâmica recente?
A visão de Bion não é inspiracional. É estrutural. Grupo de trabalho não é um estado que se atinge, é uma conquista que se faz ou se perde a cada encontro. Isso significa rituais recorrentes, papéis claros, convites explícitos. Sem estrutura, comunidade vira projeto pessoal. E projetos pessoais colapsam quando a pessoa colapsa.
Na Labuta Labs, temos pensado muito sobre isso. Não como abstração, mas como prática. Quando olhamos para a jornada do colaborador, da entrada à saída, a aprendizagem está em cada ponto de contato. E o custo de ignorar isso não é apenas uma questão de desenvolvimento: é uma questão financeira. Turnover tem custo. Desengajamento tem custo. E ambos, quando você abre o capô, têm muito a ver com a ausência de pertencimento. O Gallup mostra que apenas 39% dos trabalhadores sentem que alguém no trabalho se importa com eles dessa forma.
Design intencional da experiência do colaborador não é benefício. É estratégia. E aprendizagem, quando leva a sério o que sabemos sobre atenção, comunidade e pertencimento, é parte central disso.
Bons dias para se trabalhar não nascem prontos. Mas também não nascem do acaso.
Referências:
Josh Bersin Company. Definitive Guide to Corporate Learning.
Gallup. State of the Global Workplace 2025.
Herbert Simon (1971).
Byung-Chul Han. Não-Coisas.
Wilfred Bion. Experiências com Grupos.
Vibes em Análise. Episódio sobre Comunidades.
Barômetro Edelman (2026).