Comprei uma mesa de DJ

Comprei uma mesa de DJ para aprender mais sobre música.

Gosto muito das rodas de violão entre amigos, fazer churrasco, gente querida por perto cantando e se divertindo juntos. Já fiz aula de violão e gaita de boca por alguns anos, mas o desafio sempre foi a consistência, a prática, a repetição.

Agora com a mesa de DJ percebi uma coisa diferente: escolho as músicas e brinco com transições, as músicas são conhecidas, as pessoas gostam, sabem cantar. É uma nova experiência de tocar música entre amigos. Quando as batidas se encaixam, quando a transição soa bem, quando um movimento curioso de "e se eu virar esse botão, o que acontece?" funciona, parece que dá um clique. É a sensação de estar brincando de novo.

Foi aí que me deparei com o conceito de side quest. Side quest vem do game design e é considerada uma missão secundária. Durante o jogo, é quando o personagem faz a missão porque quer, e não porque precisa para seguir de fase.

E se fosse possível criar um espaço de aprendizado sem linha de chegada, sem ninguém dizendo que eu PRECISO aprender x ou y, sem conteúdo programático? Sem um prêmio por chegar em algum lugar, simplesmente pelo desejo de aprender.

Isso existe. Tem um conceito chamado Aprendizagem Autodirigida, e é onde meu projeto de side quest de música se encaixa.

Por mais clichê que seja, aprender é uma jornada contínua. Não à toa o conceito de Lifelong Learning é levado exaustivamente para o meio corporativo como sendo essa a alternativa de aprender não somente nos espaços formais de aprendizagem e sim ao longo de toda vida.

Ivan Illich já dizia que institucionalizar o aprendizado mata o desejo de aprender. Quanto mais transformamos o aprendizado em produto com certificado e resultado, mais destruímos a motivação intrínseca.

O aprendizado que vira obrigação perde o que tinha de vivo.

Mujica dizia que o tempo que você não vende para o trabalho é o único que realmente é seu. O que você faz com ele diz muito sobre quem você escolhe ser.

Em novembro fui assistir o Corteo, do Cirque du Soleil, e teve uma cena que me marcou:

Dois postes fixos, cinco pessoas penduradas em cada um, acrobatas sendo lançados de um lado para o outro fazendo acrobacias que já seriam complexas no solo, executadas com uma precisão e uma beleza difícil de explicar. A trilha sonora era produzida ao vivo, em tempo real. E no exato momento em que os artistas estavam no ar, saindo de um poste, antes de chegar no outro, a música parava, tinha um pequeno respiro, aquela pausa dramática. Era como se naquele instante eu ficasse sem respirar. E ao se completar a cena, toda a plateia soltava um suspiro de alívio.

Antes, o violão e a gaita eram um jeito de interagir com pessoas e amigos, esses instrumentos produzem notas, acordes, melodias, harmonias. Agora, a controladora reproduz sons, músicas completas ou partes delas, e outros sons dependendo da criatividade de quem toca.

É uma nova forma de interação com a música. No lugar de aprendiz, teoria musical ajuda, mas nesse momento é menos sobre isso e mais sobre desfrutar. A side quest para mim tem sido esse espaço de aprender para desfrutar do processo, e não sei onde isso vai terminar. 

E por aí, qual vai ser a sua side quest do ano?


Referências e leituras:

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Encontro com a Utopia