Encontro com a Utopia

Eu adoro aprender palavras novas, principalmente quando vejo que consigo usar elas no meu cotidiano. Lembro quando li “utopia” pela primeira vez. Foi na escola, escrita no quadro para descrever um modelo econômico. Perguntei para a professora o significado e ela me respondeu: “Utopia é algo que nunca vai acontecer".

Cresci acreditando nisso. Não que fosse muito distante do significado real, mas acreditar que utopias nunca fossem acontecer, faz elas ficarem inúteis. Tudo mudou quando, durante a adolescência, vi algo de Eduardo Galeano (que só depois soube que era na verdade de Fernando Birri):

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Entendo hoje, depois de muito tropeçar nas utopias minhas e dos outros, que a palavra é um verbo. Não no sentido literal, obviamente, mas no conceito de movimento que evoca. Utopia, como Galeano disse quando cita Birri, nos faz caminhar para o desejável — que é o futuro onde quero estar. Pode ser que nunca cheguemos. Essa definição consensual da palavra me faz pensar nisso. Mas ao mesmo tempo, do mesmo jeito que encaro os sonhos, penso que as utopias de ontem possivelmente são, em algum nível, a realidade de hoje.

“Sempre foi assim” foi a pior desculpa que já ouvi das minhas lideranças. E como toda experiência não é individual, acredito que esta em específico seja até um evento canônico na vida de todo trabalhador que ousou pensar em algo diferente na rotina do trabalho. O problema de aceitar o presente como a única configuração disponível é o maior gargalo que qualquer organização pode ter. Pensar em utopias, neste caso, pode ser o que destrava o potencial de inovação. Apesar de ser bem menos poético do que parece.

A inteligência artificial, por exemplo, era uma utopia nos anos 40. Do mesmo jeito que as férias remuneradas e licença-maternidade eram em 1920. E poderia estar continuando a lista falando sobre aposentadoria e jornadas diárias de 8h, até temas mais absurdos, como a abolição da escravidão, que era contrariada com a justificativa que libertar as pessoas escravizadas iria comprometer a produtividade do trabalho e consequentemente à economia do país.

Percebo que as utopias do passado são respostas aos absurdos da época. Mas a visão de que eram absurdos, precisam ser destravadas pelas lentes do futuro. O futuro é esse fio invisível que nos faz perceber que as utopias podem ser, além de desejáveis, realidades possíveis. E é por isso que também percebo o quão monotemático sou sobre os futuros. Vejo o futuro com bons olhos sempre. Só que com o olhar de quem tinha apenas esperança para se segurar na realidade do passado. Percebo, mais do que tudo, que não há uma fração de mim que não foi um sonho — seja meu ou dos meus antepassados.

É um pouco maluco lembrar de um jeito tão vívido da primeira vez que li “utopia” ao mesmo tempo que não lembro qual professora escreveu a palavra no quadro. Queria, por um momento, voltar no tempo e ter uma discussão com ela sobre os “e se?”. Qual a pior coisa que pode acontecer se nossas utopias se realizassem, mesmo que parcialmente? Parece que mirar no “utópico”, e ainda “errar”, nos garante pelo menos um cenário “ótimo”.

Acredito nas utopias como tecnologias de projeto. Vejo no meu trabalho que quanto mais deliramos, melhores os resultados finais. Portanto, será que não deveríamos delirar (em referência a outro poema de Galeano) só um pouquinho? Ou melhor: será que não deveríamos utopiar mais? Afinal, parece que a pior coisa que pode acontecer é a não realização das nossas utopias. Mas para esses cenários, a gente já tem uma palavra:

Presente.

Próximo
Próximo

A partir de que horas é aceitável comer a sobremesa?