A partir de que horas é aceitável comer a sobremesa?

2025 foi um bom ano, fizemos projetos que nos enchem de orgulho — e acredito que falo por todos meus colegas quando digo isso. Mas também foi um ano em que precisei explicar numa reunião interna o que eram brainrots e, por tabela, obrigar algumas pessoas a comerem o  morango do amor. Foi um ano labubônico, pistachístico e, olhando agora com mais calma, muito performativo.

Confeiteira cria morango do amor, sabor pistache, em formato de labubu, com referência de bobbie goods

Confeiteira cria morango do amor, sabor pistache, em formato de labubu, com referência de bobbie goods

Apesar de termos usado Inteligência Artificial em vários projetos, em vários contextos, não sinto que 2025 tenha sido o ano da IA. Não me importa muito a capa da Time. Gosto mais do fato de Cambridge ter eleito “parassocial” como a palavra do ano. Falamos bastante sobre isso por aqui, mas, ainda assim, nada disso explica completamente o sentimento pelo ano que passou.

Por culpa do algoritmo, vi um vídeo da BlaBlaLab em que eles defendem que a palavra do ano deveria ser “performar”. O que faz todo o sentido, desde o livro do Alcoforado às trends de relatório do Strava pós-corrida. A iD publicou um texto recentemente dizendo que algo se torna “performativo” quando algo parece mais curado (no sentido de ter passado por uma curadoria) do que vivido. Como se o gesto importasse menos do que a imagem que ele projeta. 

Aí surge uma pergunta: se correr um “longão” sozinho é tão prazeroso, por que ele precisa ser postado? Não entenda como um juízo de valor, até porque eu também estou nesse lugar. Afinal, o lugar em que performamos é o lugar que reforçamos nossa identidade. O problema é que só performamos aquilo que somos bons. E ninguém começa sendo bom. 

Competição de homens performáticos

Competição de homens performáticos na Universidade de Cornell

Volta e meia revisito os trabalhos do início da faculdade de design. Na época eu, tal qual um protagonista do Karate Kid, quando me deparava com os exercícios trabalhosos e repetitivos, não entendia o propósito deles. O meu “bota casaco, tira casaco, pendura casaco” — sim, o meu Karate Kid tem Justin Bieber na trilha sonora — eram os desenhos intermináveis de observação, desenhos técnicos, experimentações minuciosas com materiais diversos e talvez o que mais me traumatizou: geometria analítica.

Apesar de nunca ter postado uma mísera prancha com os desenhos da época, reconheço que eles me forjaram. Reconheço meus desenhos de longe, não só pela assinatura, mas porque vejo os traços de identidade que comecei a esboçar ali. Nas faculdades de design, pelo menos a que conheci, existe uma cultura fortíssima do craft. Você não aprende equilíbrio e peso visual só em software. Aprende fazendo miniaturas, lixando materiais, errando proporções, sujando as mãos. O material tem o próprio tempo e ele te obriga a desacelerar. Sinto que é nesse recorte que a gente vai se descobrindo.

Primeira e última xilogravura que fiz

Apesar de achar que este ano não é o ano dela, não dá para negar que discutimos IA exaustivamente no último ano. Diferente de outros hypes tecnológicos, ela entregou valor real e imediato ao mundo corporativo. Eu uso, gosto e vou continuar usando. Mas ela trouxe uma pergunta que ainda não saiu da cabeça: se a máquina cria, o que sobra para mim?

Quando as Inteligências Artificiais generativas surgiram, lembro de ler muito a frase: “quero que a IA lave a louça, quero continuar fazendo arte”. Concordo. Tenho dispositivos inteligentes em casa justamente para diminuir o esforço doméstico. Prefiro ler, desenhar ou assistir algo inútil na televisão do que aspirar a casa. Mas, paradoxalmente, meu robô aspirador demora mais para limpar a sala do que uma IA demora para me entregar quatro imagens melhores do que eu conseguiria produzir em horas. Apesar de conseguir aspirar a sala mais rápido do que o robô, eu jamais conseguiria criar com a mesma velocidade do MidJourney.

Deixar um robô substituir meu ato criativo é igual preferir comer as uvas passas da ceia de natal como se fossem a sobremesa. E eu odeio passas. 

Eu não medito. Nunca fiz Yoga. Inclusive, acendi meu primeiro incenso em 2025. Definitivamente não sou uma pessoa zen. Mas se existe algo que prende minha atenção e me deixa num estado de plenitude, é criar coisas com as mãos. Seja montando estruturas de Lego, criando objetos em cerâmica ou fazendo desenhos por horas. Fico imerso em todas as atividades, e sou igualmente péssimo em todas. Talvez esse seja meu estado meditativo, não existe nada mais libertador do que poder ser ruim. 

Kintsugi é uma técnica de restauração de cerâmicas e porcelanas que utiliza laca ou cola misturadas com pó de ouro, prata ou platina.

Imediatamente lembro do conceito de wabi-sabi: valorizar o que é imperfeito, impermanente e incompleto. Em 2026 quero ser mais íntimo do wabi-sabi. No fim de 2025, produzimos um presente para as pessoas da Labuta com uma mensagem simples: criar coisas com as próprias mãos. Se em 2025 criamos mais agentes e GPTs, espero que, ao final de 2026, saibamos olhar para o erro com mais carinho. Porque toda imperfeição é um rastro de autenticidade. E criar exige coragem para ser vulnerável.

Janeiro é o mês das metas infladas e, se a sua lista está lotada, talvez valha repensar. Avalie ser ruim em alguma coisa este ano. Melhor ainda: seja péssimo em algo manual que você nunca fez, mas sempre quis. Marcenaria, bordado ou desenho. É um pedido simples, para você não perder a intimidade com a sua capacidade criativa.

Não se engane, eu vou continuar usando IA. Vou seguir criando GPTs, agentes e automações.

Mas no próximo ano, mesmo que o caramelo esteja queimado, não vou abrir mão de comer a sobremesa antes do jantar. 


Referências:

  • G1. Com imagem de Musk, Zuckerberg e CEOs de big techs, revista Time escolhe 'arquitetos da IA' como pessoas do ano em 2025. https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2025/12/11/revista-time-escolhe-arquitetos-da-ia-como-pessoas-do-ano-em-2025.ghtml

  • BBC News Brasil. Quem são os 'arquitetos da IA' que revista Time elegeu como Pessoa do Ano de 2025. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2542q8p8eo

  • i-D. Everything Is Performative Now. https://i-d.co/article/performative-2025/?utm_campaign=feed&utm_medium=referral&utm_source=later-linkinbio

  • BlaBlaLab. E a palavra do ano é… https://www.instagram.com/blablalab.wtf/reel/DSlf4n_jAbr/

  • Leonard Koren. Wabi-sabi: Para artistas, designers, poetas e filósofos. Cobogó: 2019.

  • Neil Gaiman. Make Good Art. https://www.youtube.com/watch?v=ikAb-NYkseI

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